Cinevale (5) – Adrianópolis

Durante a última semana de julho, o CineVale em Movimento visitou o município de Adrianópolis, no Paraná iniciando a segunda etapa do projeto que em 2004 percorreu os municípios de Itaóca, Cananéia e Eldorado, no Estado de São Paulo. A equipe principal é formada pelos membros da empresa Manufatura de Ideias, Fernando César Figueiredo, Luis Eduardo Tavares e Maurício Nogueira de Carvalho. O quarto integrante da equipe é um técnico em áudio e vídeo que fica encarregado de operar o equipamento durante as exibições. Está pessoa, desde a primeira etapa do projeto, tem variado conforme o município, mas geralmente são jovens que querem ter a oportunidade de fazer um trabalho deste gênero. O técnico em Adrianópolis foi Miguel Henrique Santana.

Informações prévias de Adrianópolis

Adrianópolis é um município situado no sudeste do Estado do Paraná, à margem direita do rio Ribeira do Iguape, fazendo divisa com o estado de São Paulo. O município nasceu em 1960, emancipando-se de Bocaiúva do Sul. Seu nome é uma homenagem ao pioneiro Dr. Adriano Seabra da Fonseca que instalou ali uma indústria de mineração de chumbo, a Plumbum S/A. Em 1995, esta empresa, principal empregadora do município fechou deixando muitos moradores desempregados que passaram pouco a pouco a sair da cidade, diminuindo sua população. A principal produção econômica da localidade passou a ser o Pinus.

Com histórico de atividades predatórias à Mata Atlântica, a situação econômica dos moradores de Adrianópolis os levam a desejar a construção da represa do Tijuco Alto, pela Companhia Brasileira de Alumínio – CBA, do Grupo Votorantin, cujo projeto possui um trecho do rio Ribeira que compreende Adrianópolis e seu vizinho Cerro Azul. Os estudos para esta construção encontram-se em estado avançado, sendo que várias propriedades rurais na área a ser inundada já foram adquiridas pela CBA que, ademais, vem convocado reuniões com bairros que serão afetados pela formação do reservatório para fazer propostas de reassentamento noutras localidades.

Adrianópolis se localiza também no ponto de encontro entre duas culturas tradicionais, onde termina a cultura caiçara e começa a caipira, constituindo um privilégio único. A junção dos elementos culturais manifesta-se nas técnicas de construção das habitações, canoas e violas. A própria afinação dos instrumentos e as letras dos cantos apresentam os dois elementos.

Ações Preparatórias

O trabalho prévio de planejamento das atividades e articulação com os atores locais constitui uma etapa fundamental para o bom desenrolar projeto. O primeiro passo é sondar se haverá datas comemorativas ou feriados, nos municípios pré-estabelecidos, durante a data de execução do projeto, pelo potencial de atrair maior público. A data para a exibição no município de Adrianópolis foi escolhida em função do aniversário da cidade, dia 25 de junho, e nosso contato foi com o poder público através do vice-prefeito João Manuel que ficou satisfeito com a proposta e nos indicou as comunidades a serem visitadas. Feito o contato e definido os locais de exibição, é necessário manter uma comunicação diária com esses atores locais que irão articular as exibições nos bairros. O trabalho de divulgação consiste em contatar jornais e rádios municipais ou regionais e preparar cartazes para serem espalhados pelo município. Conseguimos inserir uma matéria do CineVale na pauta do Jornal e também na Rádio Ambiental 105.7 que fez diversas chamadas nos intervalos da programação.

Dia 25/07 – Centro

No dia do aniversário de 45 anos de Adrianópolis, a exibição do Cinevale aconteceu no centro da cidade, na praça principal, como parte dos eventos comemorativos. Antes da exibição houve um jogo de futebol entre dois times da cidade e após, para finalizar as comemorações, a apresentação de uma banda de Apiaí, estilo fanfarra.

A exibição iniciou-se às 19:30 apenas com imagens e sons para atrair o público antes de rodarmos o filme Narradores de Javé. Estando tudo pronto, o filme começou às 20:00 contando com um público de 128 pessoas.

Em geral a impressão foi positiva para os que assistiam e conversaram conosco, inclusive do pessoal da prefeitura que demonstraram grande interesse em adquirir um equipamento igual para patrimônio do município.

Dia 26/07 – Capelinha

Com a ajuda das funcionárias Lubiane, assessora de imprensa da prefeitura, e Maria Angélica, da EMATER, visitamos, durante o dia, as comunidades de Barra Grande e Capelinha para fazer a divulgação através de pessoas locais com maior poder de multiplicação. Na experiência do Cinevale de 2004, constatamos que os professores do ensino médio e fundamental da rede pública são os melhores mobilizadores para este tipo de evento. Ficou programado que a exibição ocorreria em Capelinha e que a prefeitura disponibilizaria um ônibus para levar os moradores de Barra Grande. O local de exibição em Capelinha foi o barracão da pastoral da igreja católica. Demos preferência a um lugar fechado para evitar o frio que faz durante a noite e que prejudica o público.

O ônibus passou às 18:00 em Barra Grande, onde já haviam muitas crianças esperando. Quando eram 18:30 o barracão já estava cheio, tendo mais crianças que adultos que aguardavam ansiosamente. Compareceram, nesta sessão, um público de 95 pessoas que demonstraram bastante interesse no filme, principalmente por tratar de uma questão muito presente em seu cotidiano, a ameaça da construção de uma barragem que implicará na perda de seus bairros.

A professora que levou as crianças de Barra Grande nos insistiu para fazermos uma sessão com os alunos adultos, pois acreditava ser importante para eles assistissem ao filme, devido a discussão que o mesmo traz. Combinamos, então, que no último dia quando a apresentação fosse no bairro Descampado, a prefeitura arrumaria um ônibus para leva esses alunos.

Dia 27/07 – Vila Mota

Novamente com a ajuda de Lubiane e Maria Angélica, conseguimos uma entrevista na rádio da cidade. O locutor abriu um grande espaço para que expuséssemos o projeto, o que repercutiu positivamente, pois ao final da tarde quando chegamos no bairro de Vila Mota muitos já sabiam por terem ouvido na rádio.

A exibição ocorreu no ginásio da Escola Rural Municipal Vila Mota, distante 13 km, do centro. Já tivemos experiências ruins em ginásios poli esportivos, devido à acústica que produz ecos, no entanto este ginásio era aberto nas laterais o que proporcionou uma acústica boa. A sessão contou com 116 espectadores, a maioria crianças, alunos da Escola que ainda estavam de férias, mas compareceram ao cinema. Os alunos se encarregaram, a pedido da diretora, de levar as cadeiras das salas de aula ao ginásio para depois do filme de volta as salas.

Terminado o filme a diretora elogiou bastante o nosso trabalho e contou que este mesmo filme tem sido utilizado em cursos de aperfeiçoamentos de professores ministrados Secretaria de Educação do Paraná, por abordar questões como organização comunitária e alfabetização de adultos.

Dia 28/07 – Colônia/Porto Novo

A exibição desta vez foi no bairro Colônia ou Porto Novo, o antigo nome que muitos ainda chamam, distante 20 km do centro, na Escola R.M. Silvério B. de Souza. O espaço também foi no ginásio que tinha as laterais abertas como em Vila Mota. Antes da sessão, com a ajuda da merendeira fizemos pipoca para distribuir para o público. Haviam muitas crianças que estudavam na escola, mas também haviam famílias da comunidade que apareceram para assistir ao filme. Tivemos nosso maior público em Adrianópolis nesse dia, ao todo 188 pessoas, mais do que havia no centro.

Compareceu á sessão o dentista Frederico, envolvido com trabalhos e pesquisas sobre as culturas tradicionais de Adrianópolis. Frederico havia colaborado na produção de dois documentários curtos, de aproximadamente 12 minutos cada um, sobre o fandango na região, os quais levou para serem exibidos e depois nos concedeu uma cópia para levarmos nas futuras sessões.

Neste dia, havíamos articulado um ônibus com a prefeitura para levar neste bairro os habitantes do quilombo João Sura, berço dos mais tradicionais violeiros da região, que fica à 63 km do centro. Infelizmente o ônibus enguiçou e os quilombolas não puderam comparecer.

Dia 29/07 – Descampado

No último dia, a apresentação foi no bairro Descampado, um lugar bem desarticulado, pois tem suas habitações distantes umas das outras. Chegamos por volta das 17:30 e começamos a montar os equipamentos no barracão da igreja. Com a ajuda de Dona Ana, que tem a chave da igreja levamos os bancos para o barracão improvisando mais uma sala de cinema rural. Quando já eram 19:00, o ônibus chegou lotado de alunos e pudemos ter uma boa sessão com 74 espectadores.

Primeiro foi exibido um dos documentários concedidos por Frederico, o dentista, “Cantos do Vale” e logo após “Narradores de Javé”. O público apreciou o filme, rendendo um bom debate ao final.

Dia Hora Exibição Bairro Público
25/07 19:00 Centro de Adrianópolis Centro de Adrianópolis 128
26/07 19:00 Barracão comunitário da igreja católica Capelinha 95
27/07 19:00 Escola Rural Municipal Vila Mota Vila Mota 116
28/07 19:00 Escola R.M. Silvério B. de Souza Colônia 188
29/07 19:00 Barracão comunitário da igreja católica Descampado 74
TOTAL 601

Avaliação

De negativo avaliamos, em primeiro lugar, termos viajado num só carro. Apesar de economizar no combustível, seria melhor ter ido em pelo menos dois carros, assim a equipe pode se dividir para realizar diferentes tarefas. Num só carro ficamos um pouco engessados. E, em segundo lugar, consideramos que houve falhas na divulgação. Quando chegamos em Adrianópolis, quase ninguém sabia que estaríamos a semana toda exibindo filmes.

Em geral as sessões foram apreciadas pelo público que elogiou bastante o trabalho e foi bem receptivo com a equipe. A prefeitura contribuiu, disponibilizando transporte público para levar as comunidades vizinhas às sessões. A divulgação na rádio foi fundamental para a presença de espectadores a partir do dia 27. E acreditamos ter demonstrado aos gestores públicos e demais pessoas como é simples levar cultura de qualidade à população, principalmente a que têm menos oportunidade.

Veja o álbum de fotos completo do Cinevale em Adrianópolis aqui.