Cinevale (4) – Eldorado

A passagem da equipe do CineVale em Movimento pelo município de Eldorado ocorreu entre os dias 12 a 17 de abril de 2004. Estivemos visitando cada dia um bairro diferente e terminamos nossas atividades no centro da cidade, em frente à igreja Nossa Senhora da Guia. O filme exibido continuou a ser “Narradores de Javé” e não poderia ser outro, pois é em Eldorado que a discussão apresentada pelo filme, principalmente no que diz respeito às barragens, encontra as maiores analogias.

A prefeitura de Eldorado designou Cássia, Secretária de Cultura, para ajudar no que fosse preciso, sobretudo na disponibilização de transporte para levar a população dos bairros que não entraram no roteiro para assistir ao filme na vizinhança. Combinamos que esse transporte funcionaria da seguinte maneira. No dia 13, na exibição de André Lopes, a prefeitura disponibilizaria um ônibus para levar o pessoal das comunidades vizinhas de Ivaporunduva, Sapatú e Nhunguara. Dia 14, o ônibus levaria o pessoal da Barra do Batatal para a exibição na Barra do Braço. Dia 15, levaria o pessoal de Abobral para a exibição em Vergueiro. E no dia 16, os ônibus estariam com a passagem livre para os moradores de todos os bairros que ainda não tivessem conseguido assistir ao filme para última sessão no centro da cidade de Eldorado, eles também poderiam vir nos ônibus escolares, cujas escolas estavam programadas para levar os estudantes para exibição. Infelizmente o planejado não funcionou desta maneira e os habitantes das comunidades que já não tem acesso bens culturais como o cinema também não tiveram acesso desta vez.

Dia 12/04 – Itapeúna

Logo que chegamos em Eldorado aproximadamente às 16:30, descarregamos nossas bagagens no Hotel Eldorado e já fomos até Itapeúna, onde a sessão começaria as 19:00. A sessão estava marcada para ser na escola do bairro, mas logo que chegamos percebemos que esta escola ficava um pouco afastada da praça central onde havia um bom movimento de pessoas que provavelmente não assistiriam ao filme se fosse na escola. Esta praça que tem o nome de Coronel Machado apresentava-se ideal para sessão, pois ficava bem no centro da comunidade o que tornava muito difícil algum morador não tomar conhecimento. Já se fosse na escola provavelmente a grande maioria não saberia. Assim, decididos a exibir na praça, fomos até a escola pedir que os professores levassem os alunos até o local de exibição, o que não foi problema, pois ficou combinado que os estudantes apresentariam uma redação sobre o filme no dia seguinte, dessa forma todos assistiram ao filme sem se dispersar. Nosso único problema agora era a chuva que ameaçava. De qualquer maneira resolvemos arriscar.

Muita gente compareceu, contamos 250 pessoas, um número bem expressivo. Passando da metade do filme começaram a cair algumas gotas de chuva que foram aumentando e foi então que nós ficamos surpresos. Mesmo garoando as pessoas mantiveram-se assistindo ao filme, alguns abriram o guarda-chuva e outros ficam em baixo das árvores, mas não arredaram o pé. Esse foi um sinal bem positivo. Após o filme recolhemos o lixo deixado pelas pessoas na praça.

Dia 13/04 – André Lopes

Na parte da manhã, fomos conversar com Cássia para verificar se o ônibus estava confirmado e ela nos garantiu que haveria transporte para ida e volta dessas comunidades, então fomos até os bairros fazer a divulgação. No caminho, passamos por Itapeúna e aproveitamos para registrar algumas imagens da comunidade durante o dia e, também, alguns depoimentos de pessoas que haviam assistido ao filme. Visitamos dois artesãos locais, o primeiro foi Didi que faz esculturas de formas geométricas com sementes e em seguida um velho conhecido nosso e também um dos melhores artesão do Vale do Ribeira conhecido como Félix que faz esculturas com sucata de metal. O trabalho dele é muito requisitado e todos que conhecem se impressionam com sua habilidade.

Chegamos em André Lopes para almoçar no Restaurante Paraíso e percebemos que ali mesmo era o melhor local para exibição, melhor até do que o Centro Comunitário. A equipe se dividiu para fazer a divulgação nas comunidades quilombolas de Nhunguara, Sapatú e Ivaporunduva. Ainda sobrou tempo para conhecermos um atrativo natural local, a cachoeira de Sapatú.

À noite, o transporte funcionou e as comunidades de Ivaporunduva, Sapatú e Nhunguara estiveram presentes na sessão em André Lopes somando ao todo 130 pessoas. Antes de começarmos o filme houve apresentação de capoeira de um grupo local. As comunidades contempladas nesse dia estão entre as mais ameaçadas pelo projeto de construção da barragem tijuco alto do grupo Votorantim e muitos de seus moradores integram a Movimento dos Atingidos por Barragens (MOAB), portanto, como era de se esperar, neste dia, houve um dos melhores debates no final da sessão. As falas foram fortes, politizadas e demonstrando grande espírito de resistência.

Dia 14/04 – Barra do Braço

Logo cedo, como no dia anterior, fomos conversar com Cássia a respeito do transporte e estando confirmado pudemos divulgar para os moradores. Antes de irmos para os bairros, no entanto, fomos visitar as rádios da cidade que já estavam divulgando o evento há uma semana. Em nossa visita, reforçamos a questão dos transportes principalmente para o último dia onde aguardávamos um grande número de pessoas. Existem três rádios em Eldorado, sendo uma evangélica que não tem interesse em divulgar eventos como o CineVale. Assim fomos nas rádios Matrix e Nova Estância. Ficamos 1 hora ao vivo com os locutores e com os ouvintes, registrando imagens para o nosso documentário.

À tarde partimos para o bairro Barra do Batatal para avisar os moradores que haveria transporte para eles participarem da sessão em Barra do Braço. Descobrimos, então, que os jovens desse bairro estudam em Itapeúna e já haviam assistido o filme, os mais velhos, por sua vez, acharam mais fácil assistir na sexta-feira em Eldorado do que neste dia, pois não tem o hábito de sair do bairro durante a semana.

Quando chegamos na Barra do Braço, pouco antes da exibição que estava programada para às 19:00, ficamos surpresos ao descobrir que ninguém estava sabendo que haveria cinema na escola, nem mesmo os professores. A diretora da escola estava ausente, mas havia em sua mesa o cartaz do CineVale que nosso colaborador local Evandro entregara em suas mãos pelo menos há uma semana atrás, só não se sabe porque motivo ela não avisou ninguém. Rapidamente a vice-diretora e as professoras que estavam presentes se mobilizaram para arrumar tudo. Enquanto isso, partimos para a divulgação boca-a-boca pela comunidade, o que não era muito difícil devido ao tamanho dela. Pouco antes de começar o filme já havia um número considerável de pessoas aguardando e então, com a ajuda das professoras, usamos a cozinha da escola para fazer pipoca. O ônibus que traria o pessoal da Barra do Batatal chegou vazio, conforme já esperávamos. Eles deixaram para ver o filme na sexta-feira.

Por fim esta exibição contou com a presença de 110 pessoas, acreditamos que se não fosse pelos empecilhos poderíamos juntar muito mais.

Dia 15/04 – Vergueiro

Neste dia, a exibição seria no bairro de Vergueiro e o transporte levaria as pessoas do bairro de Abobral. Nos contaram que a líder comunitária desses bairros era uma vereadora chamada Madalena. Fomos encontrá-la na prefeitura para que ela ajudasse a mobilizar os moradores para o evento, o que ela fez muito bem. Assim, partimos para a Barra do Braço, captar imagens da comunidade durante o dia e entrevistar pessoas que haviam estado na sessão da noite anterior.

Fomos para o bairro de Vergueiro montar o equipamento na escola da comunidade. No caminho ficava Abobral, cujo ônibus deveria passar por volta das 19:00 para levar os moradores para sessão. Quem encontrávamos pelo caminho avisávamos, mas todos já estavam sabendo pela vereadora Madalena que já haviam passado por ali fazendo um bom trabalho de divulgação. Chegamos até a dar carona para pessoas que já estavam esperando o ônibus na estrada, outras ficaram constrangidas de entrar no carro e disseram que ficariam esperando o ônibus mesmo. Eles estavam todos bem arrumados como se estivessem indo para uma grande festa. Logo que chegamos em Vergueiro havia grande movimentação na escola, onde principalmente as crianças aguardavam ansiosas. Montamos o equipamento e enquanto esperávamos o ônibus com o pessoal de Abobral iniciamos brincadeiras com as crianças para entretê-las, enquanto a cozinheira da escola preparava pipocas. A demora era tanta que percebemos que o ônibus não viria mais. Resolvemos então buscar aquelas pessoas que encontramos na estrada esperando pelo transporte. Chegamos até o ponto onde elas estavam e descobrimos que haviam desistido. Devido a esse fato a sessão atrasou demais e houve perda de público pela falta do transporte, o que nos deixou chateados.

Por fim esta nesta exibição haviam aproximadamente 120 pessoas, a maior parte crianças e jovens de até 16 anos. O interessante foi a reação delas diante do cinema. Madalena nos contou que 80% dos moradores de Vergueiro e Abobral são evangélicos de uma igreja que não permite nem que assistam televisão.

Dia 16/04 – Centro de Eldorado

Este era o último dia de exibição no município, por isso teríamos a presença de Leopoldo Nunes, chefe de gabinete da Secretaria de Audiovisual (SAV) do MinC. Por ocasião de um evento na Pinacoteca do Estado de São Paulo, justamente no dia 16 de abril, Leopoldo Nunes estaria em na cidade de São Paulo e Fernando, da equipe do projeto, voltou à capital logo de manhã para trazê-lo à Eldorado. Em nenhuma outra sessão houve tanta divulgação como nesse dia e, portanto, esperávamos o maior número de pessoas que já tivemos.

Conversamos com Cássia sobre o transporte na noite anterior que não levou as pessoas da comunidade de Abobral e segundo ela o ônibus passou por lá não encontrou ninguém e voltou. Ficamos sem saber ao certo o que de fato aconteceu, contudo, a pior notícia estava por vir, um imprevisto que surpreendeu a todos. Uma antiga e prestigiada professora de Eldorado chamada Bartira falecera e algumas pessoas da cidade, como a própria Cássia, acharam que por respeito seria melhor não realizar o evento programado para aquela noite na praça Nossa Senhora da Guia, no centro da cidade. Isso prejudicaria enormemente o projeto, pois passamos a semana inteira divulgando em todos os bairro que haveria transporte para eles assistirem ao filme no centro de Eldorado neste dia, combinamos com todos artesãos que visitamos para eles levarem suas obras para exporem durante a exibição, chamamos violeiros e um grupo de capoeira para se apresentarem e Leopoldo Nunes estava a caminho para participar do encerramento. Logo vimos que muitas pessoas não consideravam a necessidade de cancelar o evento, incluindo os parentes mais próximos da professora falecida que disseram que ela ficaria muito feliz com a realização do evento, pois sempre lutou para levar cultura à cidade.

Quando insistimos com Cássia que deveríamos manter a programação, não apenas pelo projeto, mas também por compromisso com as pessoas que viriam para assistir, a relação com ela não ficou boa. A secretária quis impor sua autoridade e se fixou na ideia de cancelar o evento. No fim mantivemos a programação, mas o fato a prejudicou, pois com o velório as escolas não abriram em luto, não houve ônibus para trazer o pessoal da zona rural e não foi possível fazer as apresentações dos violeiros e da capoeira. Mesmo assim estiveram presentes na sessão 350 pessoas.

Dia Hora Bairro Local de Exibição Espectadores
12/04 19:00 Itapeúna Praça Coronel Machado 250 pessoas
13/04 19:00 André Lopes Restaurante Paraíso 130 pessoas
14/04 19:00 Barra do Braço Escola de Ensino Fundamental da Barra do Braço 110 pessoas
15/04 19:00 Vergueiro Escola de Ensino Fundamental de Vergueiro 120 pessoas
16/04 21:00 Centro de Eldorado Praça Nossa Senhora da Guia 350 pessoas

Avaliação

O principal aspecto negativo foi o fato da prefeitura estar muito preocupada com o ano eleitoral e estar o tempo inteiro em cima do muro quanto a apoiar ou não o projeto, principalmente pelo motivo do filme abordar a polêmica questão da barragem que divide os moradores. A secretaria de cultura Cássia que foi designada para nos ajudar também é candidata a vereadora pelo mesmo partido do prefeito, o PSDB. Mesmo assim essa parece ser uma característica do município, pois as prefeituras de Itaóca e Cananéia não se comportaram dessa maneira. Percebemos que muitas pessoas de Eldorado mesmo as que não estão envolvidas na eleição são muito negativas o que prejudica qualquer projeto que venha de fora e mesmo de dentro.

Fora isso quase não foi possível fazer a discussão no final do filme, pois as pessoas se dispersam muito rápido quando se acendem as luzes. Quando possível voltávamos no bairro no dia seguinte para conversar com as pessoas sobre o que elas entenderam. A exceção foi em André Lopes, onde se reuniram as comunidades quilombolas que fizeram uma boa reflexão no final do filme.

Uma das melhores coisas foi ter marcado as sessões às 19:00, diferentemente de Itaóca e Cananéia em que as sessões ficaram muito tarde para os moradores das comunidades que costumam dormir cedo. Em Eldorado, não tivemos problema com as pessoas se retirarem no meio do filme por estar tarde.

Tocas as sessões contaram com mais de cem pessoas apesar dos empecilhos e imprevistos. Ao todo 960 pessoas estiveram presente nas sessões, o que é um número significativo considerando o tamanho de cada localidade onde o filme foi exibido.

Veja o álbum de fotos completo do Cinevale em Eldorado aqui.

Conclusão

A experiência do CineVale em Movimento foi muito marcante para nossa equipe e acreditamos que também o foi para o público contemplado. Para essas populações que vivem nas zonas rurais do Vale do Ribeira a visita de um cinema, mesmo que modesto, representa algo como uma festa. É tão raro um acontecimento que altere seu cotidiano que apesar de breve a passagem ela permanece na memória por muito tempo, assim nos diziam os mais velhos dos bairros quando contávamos não saber se voltaríamos ou não.

Ao todo foram 18 exibições em que estiveram presente uma média de 2.670 pessoas. É notável o fato de o público ter aumentado em cada município. Isso se deve não só ao tamanho das localidades por onde o CineVale passou, mas também ao nosso aperfeiçoamento, ao longo do projeto, em questões de divulgação e transporte de moradores de bairros que não estavam no roteiro para as sessões, conforme foi detalhado nesse relatório.

O equipamento utilizado pelo CineVale era relativamente simples de forma a ser prático para transportar e se adequar com facilidade em cada local de exibição, nos quais prevíamos enfrentar certas adversidades. Contudo, em cada bairro nos deparávamos com novas situações. Não importava o quão preparados nós pensávamos estar, em toda sessão nos surpreendíamos com algo inesperado como dificuldades em passar energia, ou como pendurar a tela, ou como apagar as luzes de uma praça.

Enfim as experiências adquiridas em cada exibição, principalmente por meio das soluções criativas que cada imprevisto nos obrigava a inventar, constituiu, cada vez mais, uma maior qualificação da equipe para o desenvolvimento desse tipo de projeto.

A beleza e a simplicidade desses bairros rurais visitados poderão ser vistas no vídeo do CineVale. Nele, procuramos mostrar as exibições e a reação do público ao entrar em contato com cinema pela primeira vez. Sempre voltávamos ao local de exibição no dia seguinte, durante o dia, para fazer entrevistas e ver os trabalhos das Associações Comunitárias ou de artesãos, captando através das lentes da câmera todo potencial dessas comunidades

É importante ressaltar que apesar de iniciativas de projetos de difusão cultural como CineVale em Movimento e outros, num contexto macro, a região permanece desprovida de investimentos culturais e ainda parece mais retroceder nesse campo que avançar. Quando iniciamos o projeto, freqüentemente citávamos que entre os 23 municípios do Vale do Ribeira, somente Registro e Iguape possuíam sala de cinema. Em maio deste ano, a sala de Iguape fechou e com ela mais uma porta de acesso à cultura para a população do Vale do Ribeira.

O Projeto CineVale em Movimento pretende ir mais longe do que visitar apenas três municípios e também não se completa sozinho, ele é parte de um conjunto coerente de ações que foram e estão sendo realizadas pela Agenda de Ecoturismo do Vale do Ribeira e pelo IDESC. Estas entidades tem como preceito trabalhar a região de forma integrada e continuada, buscando ampliar os canais de comunicação entre o poder público e as comunidades rurais, com vistas ao desenvolvimento local. A parceria com o Ministério da Cultura é fundamental para as ações culturais que integram nosso escopo de trabalho.