Cinevale (3) – Cananéia

Nesta segunda rodada de exibições a equipe do CineVale, esteve no município de Cananéia e no Parque Estadual da Ilha do Cardoso. Foram realizadas oito sessões, cada uma em uma localidade, onde foi exibidos o filme “Narradores de Javé”.

Dia 21/03 – Centro de Cananéia

A primeira exibição estava prevista no centro da cidade, na Praça dos Canhões às 21:00. Este horário foi combinado, inclusive com o padre de Cananéia João XXX. Por ser o horário que acabaria a missa. Assim, logo que chegamos fomos direto à praça montar os equipamentos.

Para nossa surpresa quase ninguém estava sabendo, apesar dessa atividade ter sido divulgada no jornal e na rádio da cidade, sendo a divulgação boca-a-boca antes da exibição a responsável por atrair um maior número de pessoas.

Foi preciso improvisar algumas soluções para diminuir a iluminação do local e fechar a rua, pois neste aspecto a prefeitura não contribuiu. O apoio da prefeitura consistiu em disponibilizar um computador na Secretaria do Turismo para usarmos quando fosse preciso.

O público na praça era de aproximadamente 300 pessoas que assistiram ao filme até o final.

Dia 22/03 – Marujá e Ariri

O diretor do PEIC, Marcos Campolin disponibilizou o barco Tritão para nossas atividades, desde que arcássemos com o combustível e diária do barqueiro. Partimos para ilha às 15:00.

Chegamos na comunidade do Marujá pouco antes das 17:00, e fomos para o Centro Comunitário montar os equipamentos. A comunidade do Marujá é bem organizada, há tempos que eles recebem turistas, sem deixar que o local seja impactado seriamente. A liderança da comunidade é o Sr. Ezequiel, que mantém bastante legitimidade junto aos moradores da comunidade. Na hora da sessão, o Sr. Ezequiel rapidamente reuniu os moradores no centro comunitário, umas 80 pessoas, o que é bastante considerando o tamanho da comunidade. Pela reação dos espectadores pudemos sentir que eles gostaram bastante do filme. Infelizmente como tínhamos uma sessão marcada para logo mais não foi possível fazer uma discussão mais aprofundada do filme, fizemos uma pequena conversa e partimos de barco rumo ao Ariri.

A comunidade de Ariri fica no continente, a aproximadamente 65 km do centro de Cananéia, de frente para o canal onde transitam os barcos que vão para Ilha do Cardoso. É uma comunidade mais urbanizada e bem maior que as da ilha. A exibição foi feita numa escola de ensino médio e fundamental. Nesta sessão havia aproximadamente 100 pessoas que reagiram bem ao filme. O único problema foi que começando às 21:00 a sessão acabou após às 22:30 que é uma horário tarde para os moradores de Ariri. Por isso mais uma vez não foi possível fazer a discussão do filme, pois assim que acabou as pessoas se dispersaram muito rapidamente.

Dia 23/03 – Pontal do Leste e Enseada da Baleia

Na parte da manhã aproveitamos para captar imagens na comunidade do Marujá e fazer entrevistas com o Sr. Ezequiel, Isidoro, outra liderança local, além de outros moradores que comentaram sobre o filme e a memória cultural da comunidade. Em seguida rumamos para o Ariri para captar mais imagens e entrevistas com o presidente da Associação Comunitária Célio e seu grupo de capoeira. Na sequência, a caminho da Comunidade de Pontal do Leste, onde faríamos uma exibição às 17:00, conhecemos uma comunidade abandonada chamada Ararapira, que pertence ao Paraná. Os moradores de Ararapira pouco a pouco foram deixando o lugar devido às pesadas restrições impostas pelas leis ambientais por ser terra do Parque Nacional de Superagui. Restaram as construções tradicionais e uma igreja do século XVIII.

Chegamos em Pontal do Leste, último do Estado de São Paulo, pois localiza-se na ponta da Ilha do Cardoso onde se encontram o canal de mar de dentro que separa o Estado de São Paulo do Paraná, e logo ficamos sabendo que a maior parte dos moradores estavam em Cananéia, devendo chegar lá pelas 18:00. Combinamos, então que passaríamos o filme às 18:30, para podermos chegar às 21:00 na Enseada da Baleia que era relativamente perto de lá.

Ambas as comunidades, de Pontal do Leste e Enseada da Baleia, são bem pequenas e as sessões contaram, respectivamente com 32 e 28 pessoas. Na Enseada da Baleia as crianças tiveram que se recolher na metade do filme, pois acordariam muito cedo para ir à escola em Cananéia. Mas, o principal aspecto a ser abordado nestas duas exibições é a questão da energia nestas comunidades. Por pouco que não conseguimos passar o filme, devido aos geradores que estavam falhando bastante. Principalmente na Enseada da Baleia, houve atraso para começar o filme até trocarem de gerador que só funcionou porque tínhamos gasolina no barco para esses eventuais problemas.

Mais uma vez devido a esses contratempos não foi possível fazer uma discussão mais aprofundada ao final do filme apenas uma breve conversa. Essa experiência nos fez sentir as dificuldades que essas populações enfrentam por problemas de energia.

Dia 24/03 – Porto Cubatão

Encerrada nossas apresentações na Ilha do Cardoso voltamos a Cananéia para continuar as atividades. O barco que estava a nossa disposição deveria levar representantes do Marujá para uma reunião do Conselho Gestor do PEIC na sede administrativa em Cananéia que ocorreria às 10:00. Assim embarcamos de volta ao continente às 6:00 durante o nascer do sol e foi um percurso incrível.

Em Cananéia precisávamos ainda definir o local de exibição no bairro de Porto Cubatão e de Itapitangui que seria no dia seguinte. Visitamos os bairro e definimos os locais que seriam em escolas a Escola de Ensino Médio e Fundamental Isaura Araújo Maciel, no bairro de Porto Cubatão, e a Escola de Ensino Médio e Fundamental Oswaldo Lucachaki, em Itapitangui

A sessão seria no ginásio de esportes, logo após a aula de capoeira. Os professores também dispensaram os alunos para ver o filme. A equipe se dividiu antes da sessão e enquanto uns montavam o equipamento outros utilizavam a cozinha da escola para fazer pipocas. Foi uma das maiores sessões com aproximadamente 200 pessoas. O público aparentemente gostou do filme rindo do começo ao fim, mas dispersou-se rapidamente quando se acenderam as luzes e também não foi possível fazer discussão.

Dia 25/03 – Itapitangui

Estando definido o local de exibição aproveitamos o dia para descansar e conhecer atrativos naturais de Cananéia, mais especificamente a cachoeira de Itapitangui, que também são importantes para nosso registro de imagens.

À noite a exibição de Itapitangui merece algumas reflexões, pois a reação do público foi diferente de todas as outras sessões. O local era semelhante ao de Porto Cubatão a exibição foi feita num ginásio, houve apresentação de capoeira antes do filme, foram distribuídas pipocas, a faixa etária do público era de crianças de 10 à 17 anos e havia aproximadamente 165 pessoas. No entanto, ao serem apagadas as luzes as crianças ficaram inquietas fazendo algazarra e inviabilizando a todos de escutar o filme. Antes de chegar na metade do filme muitos começaram a se levantar para sair da sala ou ficar correndo pelo ginásio. Quando perguntávamos se não iam assistir até o final respondiam que o filme era muito chato. Quando acabou a sessão o ginásio estava bem esvaziado.

Como isto aconteceu somente em Itapitangui devemos nos perguntar o que deu errado nessa sessão. Em primeiro lugar a acústica do ginásio estava muito ruim, o som se dispersava no ambiente e mal dava para ouvir os diálogos, independente das crianças que não paravam de gritar, por isso nas exibições futuras é melhor evitar os ginásios esportivos. Mas o comportamento das crianças é algo que independe de nós. Sobre este aspecto observamos que a escola não era exatamente um espaço comunitário. Os portões ficaram trancados a chave até o momento da exibição, por isso atribuímos o comportamento um tanto revoltado das crianças a um método educacional repressor por parte da escola.

Dia 26/03 – Mandira

O último dia de exibição foi na comunidade quilombola do Mandira, famosa pela Cooperostra. Mandira é uma comunidade interessante em vários sentidos. Recentemente, suas terras foram oficializadas como Reserva Extrativista, uma categoria de unidade de conservação que permite aos seus habitantes continuar tirando seu sustento dos recursos naturais através de manejo sustentável. O presidente da Cooperostra e, também, líder comunitário João Mandira frequentemente é convidado a viajar para congressos pelo Brasil, chegou a ir para Johanesburgo, na África do Sul, para Rio +10. Por todos esses motivos chegamos cedo em Mandira a fim de conhecer bem a comunidade, captar imagens e fazer entrevistas.

Chegamos antes do almoço e fomos conhecer as ruínas de uma casa do século XVI e a Cachoeira de Mandira. Após o almoço conhecemos os trabalhos de costura das mulheres da comunidade que fabricam bolsas, peças de roupa e enfeites. No final da tarde nos convidaram a participar da via sacra, que consistia numa caminhada de aproximadamente dois quilômetros Esta via sacra que é realizada todos os anos antes da páscoa faz parte da campanha da fraternidade da igreja católica e neste ano o tema da discussão é o problema da água. Assim que voltamos iniciamos a sessão no centro comunitário com aproximadamente 55 pessoas e foi uma das melhores sessões, principalmente pelo grau de consciência desta comunidade bem avançada em questão de organização.

Dia Hora Bairro Local de Exibição Espectadores
21/03 21:00 Centro de Cananéia Praça dos Canhões 300 pessoas
22/03 17:00 Maruja (PEIC) Centro Comunitário 80 pessoas
21:00 Ariri Escola de ensino médio e fundamental do bairro 100 pessoas
23/03 17:00 Pontal do Leste (PEIC) Escola de ensino fundamental do bairro 32 pessoas
21:00 Enseada da Baleia (PEIC) Centro Comunitário 28 pessoas
24/03 20:00 Porto Cubatão Escola de Ensino Médio e Fundamental Isaura Araújo Maciel 200 pessoas
25/03 20:00 Itapitangui Escola de Ensino Médio e Fundamental Oswaldo Lucachaki 165 pessoas
26/03 20:00 Mandira Centro Comunitário 55 pessoas

Avaliação

Mais uma vez alguns aspectos negativos se repetiram, a má divulgação feita pela prefeitura e os horários tardes que prejudicam a presença de mais pessoas. Apesar de termos observado estes aspectos em Itaóca, não conseguimos evitá-los em Cananéia, pois os horários já haviam sido marcados a tempos e quanto a divulgação só tivemos uma semana entre os dois municípios o que não foi tempo hábil suficiente. Mas em Cananéia enfrentamos outros problemas. Primeiro, quase não foi possível fazer a discussão sobre o filme que é tão importante para o nosso projeto, isso se deveu ao tempo apertado quando tínhamos duas sessões por dia e ao horário tarde que fazia com que as pessoas ou não ficassem até o final da sessão ou dispersassem rapidamente quando acabava o filme. Aprendemos, também, que ginásios esportivos não são adequados para as exibições, pois apresentam uma acústica muito ruim. E em lugares que a energia funciona com geradores temos que levar gasolina extra. Outros aspectos negativos em Itapitangui fazem parte dos imprevistos de cada localidade que não temos como prever.

O filme “Narradores de Javé” funcionou para os nossos objetivos, mesmo não sendo possível fazer as discussões foi perceptível a identificação do público com a realidade do filme. Em geral fomos muito bem recebidos em cada comunidade que visitamos. Quase em todas elas nos perguntaram quando voltaríamos. A certeza de que o projeto teve impacto positivo pode ser constatada pela abertura que as comunidades nos ofereceram, como em Mandira, onde nos convidaram para participar da via sacra, uma atividade própria da comunidade e ainda agradeceram nossa presença. Ao todo foram aproximadamente 950 pessoas que assistiram ao filme, o que é bem significativo considerando o tamanho dessas comunidades.

Enfim as experiências adquiridas em cada exibição, principalmente por meio das soluções criativas que cada imprevisto nos obriga a inventar, constitui, cada vez mais, uma maior qualificação da equipe para o desenvolvimento desse tipo de projeto.


Veja o álbum de fotos completo do Cinevale em Movimento em Cananéia aqui.