Cinevale (2) – Itaóca

O texto que se segue foi escrito em 2004 e trata-se de um relatório da visita do Cinevale em Movimento no município de Itaóca, apresentado ao Ministério da Cultura como prestação de contas. O curioso destes relatórios que fazíamos é o seu estilo em formato de narrativa que se apresenta com uma perspectiva interessante oito anos após.

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Entre os dias 8 e 13 de março de 2004, a equipe do CineVale em Movimento esteve no município de Itaóca para iniciar as atividades de exibição e debate de filmes e documentários nacionais em comunidades rurais do Vale do Ribeira. Em cada sessão era exibido o episódio “Brasil Caipira” (25′) da série de documentários “O Povo Brasileiro” baseada na célebre obra de Darcy Ribeiro e dirigida por Isa Ferraz. Na sequência, era exibido o longa metragem “Narradores de Javé” dirigido por Eliane Caffé e que, durante as exibições no Cinevale em Movimento em Itaóca, ainda encontrava-se em cartaz nos cinemas das grandes cidades.

Ambos os filmes foram selecionados por apresentarem realidades muito semelhantes às que se encontram em Itaóca e em todo o Vale do Ribeira e foram gentilmente cedidos pelas produtoras Superfilmes, de “O Povo Brasileiro”, e Bananeira Filmes, de “Narradores de Javé”, além do incentivo de ambas diretoras que compreenderam o valor social do projeto.

O filme documentário “O Brasil Caipira” conta a história das origens dos povos do interior de São Paulo, mostrando seu modo de vida hoje e as dificuldades enfrentadas por aqueles que saem de suas terras para morar na cidade grande. “Narradores de Javé”, filme que elegemos como “carro chefe” do projeto, trata de uma comunidade fictícia denominada Javé, que passa por um dilema vivido por qualquer comunidade tradicional, o dilema do progresso. Diante da ameaça da construção de uma barragem que desapropriaria suas terras, os moradores de Javé resolvem resgatar sua história e colocá-la no papel na tentativa de serem reconhecidos como patrimônio histórico e assim evitar a tragédia. Essa é uma realidade muito familiar às comunidades do Vale do Ribeira.

Retomando o objetivo do projeto de estimular, procurando fortalecer o auto conhecimento dessas comunidades rurais, através do cinema nacional, oferecendo relatos de um imaginário em que podem se reconhecer, entrando em contato com situações similares às que vivenciam no dia-a-dia, as discussões que procuramos incitar foram no sentido de resgatar a memória dessa gente, ressaltando a importância da organização, cooperação e união das comunidades para se fortalecerem.

Dia 8/03 – Chegada em Itaóca

Chegamos em Itaóca às 17 horas e nos acomodamos na pousada Recanto da Fazenda, no Bairro Fazenda à 3 km do centro da cidade. As exibições iriam começar no dia seguinte e resolvemos testar os equipamentos, fazendo uma projeção na própria pousada. Logo que começou o filme houve uma aglomeração de umas vinte pessoas que moram no entorno para assistir. Percebemos aí o potencial de impacto do projeto.

Dia 9/03 – Cangume

Na parte do dia, o secretário municipal Jonas Mendes Júnior nos levou para conhecermos a região. No final da tarde, a chuva começou a ameaçar e nos preparamos para ir à comunidade quilombola Cangume, local da estreia do projeto. Chegamos em Cangume às 19:00 debaixo de forte chuva que por pouco não nos obriga a cancelar a exibição devido a monentânea queda de energia. Antes das 20:00 a chuva passou e aos poucos começaram a chegar os moradores. A sessão teve a presença de 60 pessoas, mas poderia ter havido mais se não fosse pela chuva que impediu os moradores das áreas mais íngremes de chegar ao Centro Comunitário. Também foi constatado que a divulgação não foi suficiente tendo muitas pessoas ficado sabendo no próprio dia. Após a exibição iniciamos uma discussão com os moradores de Cangume sobre se eles, assim como os moradores de Javé, conheciam a sua história. Curiosamente poucos sabiam contar sobre a origem de seu povoado, até mesmo os mais velhos. Combinamos, então, que voltaríamos no dia seguinte de manhã para conversar melhor e captar umas imagens da comunidade durante o dia.

Dia 10/03 – Pavão

Conforme o combinado, fomos ao quilombo de Cangume na parte da manhã fazer entrevistas com seus moradores. Depois de muita conversa foi possível descobrir que o fundador do povoado chamava-se João Cangume e que numa determinada época os homens de lá precisavam capturar índias na mata devido a falta de mulheres, fato curioso que os moradores chamam de “pegar à laço”. Esse fato revela uma ascendência não apenas africana, mas também indígena da comunidade. De acordo com informações secundárias, a escassez de memória histórica de Cangume se deve à uma certa vergonha que sentiam durante muito tempo de se assumirem enquanto quilombolas, Este termo era tido como pejorativo, significando “negro fujão”. Apenas recentemente, informados pelos benefícios que a lei de terras garante às comunidades quilombolas é eles voltaram a se assumir enquanto quilombo. Há uma evidente necessidade de um trabalho de reativação da memória no quilombo do Cangume.

Saindo do Cangume fomos conhecer um dos atrativos naturais de Itaóca que estava próximo antes de almoçarmos e nos preparar para a exibição no bairro Pavão.

No bairro Pavão, a sessão ocorreu no período de aula da escola de ensino médio e fundamental Profa. Nézia Amorim Martins que recebe alunos dos bairros Pavão e Fazenda, um público predominantemente juvenil. A diretora e as professoras gostaram muito dos filmes e acharam ótimos como complemento de aula, porém se queixaram da divulgação feita pela prefeitura que além de ter sido fraca não expunha a sinopse dos filmes impedindo que planejassem uma atividade mais proveitosa. Também não foi possível fazer discussão ao final da exibição, pois o ônibus que levava as crianças para casa já estava esperando do lado de fora da escola e não demorou um minuto para esvaziar o pátio quando ascenderam as luzes. Por isso marcamos com a diretora de voltar o dia seguinte para conversar com os alunos.

Dia 11/03 – Caraças

Neste dia aproveitamos a parte da manhã e tarde para visitar alguns artesãos locais e registrar suas técnicas tradicionais. A primeira foi a artesã Sinha Ana, que faz panelas e vasos de barro. Apesar de doente ela teve disposição para nos mostrar sua técnica o que enriqueceu bastante nosso acervo e imagens. Depois de visitamos a casa do Sr. Antônio que faz queijos deliciosos em forno a lenha. Ele nos recebeu com bastante alegria e as imagens que obtivemos foram sensacionais.

Após o almoço descansamos um pouco e dividimos a equipe para realizar as duas tarefas da noite. Enquanto Fernando e Peter foram para o bairro Caraças montar o equipamento e iniciar a exibição, Luis e Maurício foram à escola do bairro Pavão fazer a discussão com os alunos sobre os filmes.

As discussões foram feitas em sala de aula e pudemos constatar o impacto positivo dos filmes nos adolescentes. Alguns alunos deram depoimentos muito interessantes, os quais poderão ser vistos no documentário que iremos editar.

Em Caraças, havia 57 pessoas fora as que assistiram da janela de casa. No final foi possível fazer uma pequena discussão em que vimos que os moradores se interessaram bastante pelos filmes. Em “O Brasil Caipira” os moradores de Caraças identificaram-se com muitos elementos familiares ao seu cotidiano e em “Narradores de Javé” compreenderam a importância de manter viva a memória de suas origens e da organização comunitária.

Dia 12/03 – Lageado

Voltamos em Caraças durante o dia para conhecer a Associação Comunitária, fundada após o trabalho da Agenda de Ecoturismo e da Agenda Rural, que vem sendo bem sucedida. Entrevistamos, na associação, o Sr. Francisco e sua mulher no momento em que fabricavam rapadura artesanalmente de excelente qualidade. Mais tarde conhecemos a Cozinha Comunitária do bairro que foi inaugurada a pouco tempo e está em plena atividade, fabricando pão e bolo que são vendidos na cidade.

Ao final da tarde fomos para o bairro Lageado fazer a exibição numa escola, mas desta vez não no período de aula, pois a escola só funciona durante o dia. A diretora da escola é, também, a primeira dama de Itaóca e foi muito atenciosa conosco. Fizemos pipoca na cozinha da escola e distribuímos para o público. No entanto, esta sessão foi a que teve o menor número de espectadores, apenas 47. A chuva contribuiu para o baixo número de presentes.

Dia 13/03 – Centro de Itaóca

Para este dia a prefeitura estava planejado uma série de atividades culturais. Logo de manhã um mutirão para tapar buracos na estrada do varadouro (principal atrativo do município), mas tudo feito com carros de boi típicos e no final um almoço comunitário, partida de futebol e moda de viola. Tudo parte da cultura caipira tradicional. Os carros de boi ainda são utilizados na região. A opção de usar carros de boi, ao invés de tratores, foi devido ao baixo impacto causado na estrada e margens do estreito caminho.

À noite no centro da cidade, na praça principal, onde ocorreria o fechamento da programação do CineVale em Itaóca, houve apresentações de danças típicas como a Dança de Fita e o Fandango de Tamancos e logo em seguida a nossa última exibição no município. Como era de se esperar tivemos o maior público, cerca de 450 pessoas.

Dia Hora Bairro Local de Exibição Espectadores
09/03 20:00 Cangume Centro Comunitário 60 pessoas
10/03 20:00 Pavão Escola de Ensino Médio e Fundamental Profa. Nézia Amorim Martins 150 pessoas
11/03 20:00 Caraças Centro Comunitário 57 pessoas
12/03 20:00 Lageado Escola de Ensino Fundamental Cassilda Lages Pereira Cauani 43 pessoas
13/03 20:00 Centro de Itaóca Praça José Silva 450 pessoas

Avaliação

O que podemos tomar de lição para os próximos municípios é que uma das coisas mais fundamentais para o sucesso das exibições é uma boa divulgação. Em Itaóca, o pessoal da prefeitura ficou encarregado de fazer a divulgação e nós não interferimos. Somente durante nossa passagem pelo município é que percebemos que essa divulgação foi fraca e assim perdemos um número considerável de público. Apesar da entrevista dada à rádio de Ribeira, município vizinho, pois não há rádios em Itaóca.

Outra coisa que aprendemos em Itaóca é que em comunidades rurais as pessoas dormem cedo e, portanto, 20:00 já é um horário tarde para iniciar as exibições. As pessoas acabam assistindo ao filme até o final, mas não ficam para a discussão.

A escolha dos filmes foi boa, ambos provocaram o efeito que esperávamos, rendendo reflexões interessantes por parte dos espectadores. A receptividade do povo de Itaóca para conosco foi excelente, ficando evidente que realmente gostaram do projeto.

Apesar das falhas da divulgação, atingimos um público de aproximadamente 760 pessoas, o que representa cerca de 25% da população total do município.

Foi, também, satisfatório ver alguns frutos da Agenda Rural – Programa de Fortalecimento das Vocações das Comunidades Rurais do Vale do Ribeira, realizado entre 2001 e 2002, pela Agenda de Ecoturismo do Vale do Ribeira. Além da Associação Comunitária do Bairro Caraças, que se constituiu a partir da Agenda Rural, em todas as comunidades haviam pessoas que participaram do processo e vêm continuando um trabalho de militância e liderança junto ao seu povoado no sentido de fortalecimento e união de suas comunidades.

Veja o album de fotos completo do Cinevale em Itaóca aqui