Cinevale (1)

 

O Cinevale em Movimento foi um projeto que marcou a trajetória da Manufatura de Ideias. Primeiro porque foi o projeto que deu início a formação da empresa – até então ainda atuávamos exclusivamente no setor público, no CEPAM e IEA. E, também, porque foi nosso primeiro projeto cultural, inserindo-nos de uma maneira mais ampla na área do audiovisual e a partir do qual vários projetos se desdobraram como o Cineclube Pólis e o Cineclube Aldeia Cultural.

O projeto começou a ser concebido em 2003, primeiro ano do então novo ministério da cultura com Gilberto Gil no comando, dando início a um novo período nas políticas culturais no Brasil. Pela primeira vez, pequenas organizações e pequenos projetos conseguiam acessar os editais de financiamento do MinC e nós precisávamos de um projeto para o Fundo Nacional de Cultura. Foi então que elaboramos uma ideia de cinema itnerante que percorrece as comunidades rurais do Vale do Ribeira, uma região que já conhecíamos bem. Desejávamos atingir principalmente um público formado por populações tradicionais caipiras, caiças e quilombolas que habitavam as zonas rurais e costeiras mais profundas do Vale do Ribeira e, assim, selecionamos os município de Itaóca, Cananéia e Eldorado, onde respectivamente encontravam-se essas populações, para dar início ao projeto. Logo no começo de 2004, recebemos o recurso e partimos a campo.

Atualmente, existem muitos projetos de cinema itnerante devido ao nível de disseminação das tecnologias digitais, mas em 2004 praticamente não existiam e nossa principal referência era o Cine Mambembe, desenvolvido pelo casal Laís Bodanski e Luiz Bolognesi. Fiz uma visita na produtora do casal, a Buriti Filmes, para apresentar nosso projeto e recebi muitas dicas de Luiz Bolognesi. Neste mesmo ano o movimento nacional cineclubista também estava se rearticulando após um longo inverno, prenunciando a proliferação de projetos de projeção cinematográfica alternativas que iriam acontecer nos anos seguintes.

Lembro que foi difícil para nós, principiantes nessa prática, selecionar os filmes que seriam exibidos. A proposta consistia em difundir obras audiovisuais que essas populações não tinham acesso, portanto tínhamos que nos distinguir da programação televisiva, pois essa sim chegava até eles. Precisávamos de um filme nacional que fosse facilmente inteligível, mas que tivesse um bom conteúdo e, mas do que isso, que servisse como um espelho da realidade desse público, isto é, que não representasse um imaginário totalmente exógeno a sua realidade. Queríamos que o público se identificasse com o filme, que este gerasse reflexões importantes sobre sua vida cotidiana.

Após assistir a inúmeros filmes, nenhum dos quais que preenchesse aos requisitos do projeto, eis que estréia no cinema o filme Narradores de Javé, de Eliane Caffé. Fui no cinema assistir e logos nas minhas primeiras impressões do filme: Bingo! O filme se encaixava perfeitamente na proposta, pois tratava de uma comunidade e de uma região fictícia, o Vale do Javé, que estava na iminência de ser atingido pelas inundações provocadas pela construção de uma usina hidrelétrica, fazendo com que seus habitantes precisassem se organizar. Era exatamente o espelho que precisávamos, tendo em vista o fato de que muitas comunidades rurais do Vale do Ribeira vivem há muitos anos sob ameaça de construção de uma hidrelétrica e ainda por cima inseria uma discussão política. O filme ainda estava em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, mas a produtora Bananeira Filmes autorizou que levássemos uma cópia no Cinevale em Movimento. Para complementar a programação, levamos alguns curtas de animação e outros do Humberto Mauro e o episódio Brasil Caipira da série O Povo Brasileiro, diridida por Isa Ferraz.

Operar um equipamento digital é muito fácil, mas éramos tão principiantes que precisávamos de um técnico para nos acompanhar na viagem. Numa conversa com o antropólogo Antônio Carlos Diegues na sede do NUPAUB – Núcleo de Apoio à Pesquisa de Populações e Áreas Úmidas, na USP, ele nos apresentou Piter Pinilha, na época o projecionista do Cinusp. Piter se entusiasmou com o projeto e compôs a equipe em nossa primeira incursão do Cinevale, no município de Itaóca.

Nosso equipamento era:

1 projetor multimídia Infocus X2 com tecnologia DLL 1600 ansi-lumens e 2000dpi de contraste
2 caixas acústica JBL
1 receiver pioneer
1 amplificador DBK 6000
1 DVD Philipes 3500
1 Tela 4,5m x 3m
2 Tripés

Levávamos um estojo com DVDs, que por maior que fosse ainda não permitia muitas opções. Depois apresendemos que seria melhor substituir o DVD Player por um notebook e conectar a ele um HD externo com um opção muito maior de filmes.